O evangelho de hoje nos apresenta uma cena composta por duas imagens significativas: por um lado, Jesus na montanha em oração (vv.22-23), por outro, os discípulos na barca enfrentando uma tempestade enquanto atravessam o mar (vv.24-33). Imagens que se iluminam mutuamente: a luta dos discípulos acontece sob o olhar e a intercessão de Jesus. Essa perícope é uma das mais densas de São Mateus, é um verdadeiro ícone da identidade de Jesus e da condição da Igreja; podemos perceber na narração a resposta a três perguntas importantes: quem é Jesus, o que significa ser seu discípulo e qual a missão da Igreja.
“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem”. O verbo grego (anankazō) significa obrigar, forçar, indicando assim a autoridade de Jesus sobre os discípulos; na verdade, Jesus impõe a separação, cuja finalidade é pedagógica, proporcionar crescimento na fé, em meios às tribulações. São João Crisóstomo destaca que “Jesus obriga os discípulos a partir para ensiná‑los a confiar”. Por sua vez, Ele sobe ao monte para orar, não por necessidade própria, mas para ensinar a Igreja que a missão só se sustenta pela oração. Ademais, o Senhor se retirando para a montanha, sozinho, a fim de rezar, atitude recorrente no evangelho, confirma a sua intimidade com o Pai, faz eco à figura de Moisés no Sinai, como intercessor (cf. Ex 17,9-16). Dessa forma, o evangelista sublinha que a missão dos discípulos não começa por iniciativa própria, mas por ordem de Jesus, e é sustentada pela sua oração.
“A barca, porém, era agitada pelas ondas”. Aqui também temos um verbo grego muito forte (basanízō) que significa ser torturado, atormentar. Portanto, a barca não está apenas “agitada”, mas violentada pelas forças contrárias. A cena evoca a riqueza do simbolismo bíblico do mar: caos primordial (Gn 1,2), morada das forças hostis (Sl 74,13‑14), símbolo do mal e da morte. Como a barca é imagem da Igreja em missão, ressalta-se a sua constante realidade: atravessar mares revoltos, enfrentando forças aparentemente maiores que ela. “Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos andando sobre o mar”, isto é, na quarta vigília (entre 3h e 6h da manhã), o momento mais escuro da noite, símbolo também da crise e da dúvida. Nessa descrição, o evangelista reitera que Jesus é Deus, pois somente Deus domina o mar (cf. Sl 77,20), pisa as ondas (cf. Jó 9,8), vence o caos. Ao caminhar sobre as águas, Jesus manifesta sua identidade divina: “Coragem! Sou eu!” A expressão “Sou eu” (grego: ego eimi) remete à fórmula do nome divino (cf. Ex 3,14). Não é apenas “sou eu, Jesus”, mas “Eu sou”, o nome do Deus que salva. Por conseguinte, Jesus revela que sua presença é maior que o caos que ameaça a barca.
Diante do desafio lançado por Pedro: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”, Jesus lhe permite sair da barca; ele começa bem, mas ao “ver o vento”, perde o foco, a fé vacila, e começa a fundar. A atitude de Pedro é cheia de ambiguidades, se por um lado deseja ardentemente ir até Jesus, esquece-se que é humano, vulnerável ao medo, que só permanece de pé enquanto mantém o olhar fixo no Senhor. Contudo, a sua exigência denuncia que ele não queria apenas ir ao encontro de Jesus, mas pede ser como Jesus (divino), negando a sua condição humana, os seus condicionamentos reais. Apesar da tentação arrogante de querer ser divino, como o velho Adão, Pedro quando começa a afundar, mergulha em si mesmo, e deve fazer uma escolha entre permanecer na sua arrogância e afogar-se perdendo a vida, ou dobrar o orgulho, reconhecendo a sua natureza incapaz de salvar-se a si mesmo, e numa atitude de humildade, pedir socorro: “Senhor, salva-me!”. O caminho de salvação abre-se à medida que o ser humano se reconhece quem é e quem é Deus. Objetivamente, sendo pescador experiente, Pedro poderia ter reagido com suas capacidades, nadando, e naturalmente voltar para a barca. Mas a tentação de querer ser deus, de andar sobre as águas, o fez perder até mesmo a consciência do que era capaz de fazer. A pergunta de Jesus: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” não é simplesmente uma reação de desaprovação da atitude falida de Pedro, mas uma ocasião de revelar-lhe quem ele era.
Quando Jesus entra na barca, o vento cessa, os discípulos o adoram, e proclamam: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” Essa é a primeira confissão explícita dos discípulos sobre a identidade divina de Jesus em São Mateus. Vale salientar que a fé nasce da experiência de ser salvo e não de uma aceitação teórica de uma formulação dogmática, e a barca só encontra paz quando Jesus está dentro dela.
Não se deve ler esse evangelho apenas como uma narração de um fato do passado. Na verdade, teologicamente, a cena descrita aponta para verdades fundamentais de todos os tempos, isto é, a missão da Igreja é atravessar mares revoltos. Contudo, Jesus nunca abandona seus discípulos, Ele intercede e vem ao encontro deles.
A presença de Cristo não elimina o vento; mas é fé nele que vence o medo. A verdadeira identidade de Jesus (Filho de Deus) se revela, sobretudo, no momento da crise. A fé é caminhar sobre o caos sustentado pelo olhar fixo em Cristo.
Com efeito, todos nós somos como Pedro, desejosos de caminhar até Jesus, mas vulneráveis ao medo, necessitados de conversão frente as tentações de autossuficiência, arrogância… Todos nós estamos na barca, lutando contra os ventos contrários, e dependemos da mão estendida de Cristo, que nos salva antes mesmo de sermos capazes de explicar nossa queda, porém sem a fé naufragamos.
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