XVIII Domingo Tempo Comum (Mt 14,13-21) – A gratidão multiplica o pouco oferecido com generosidade!

Antes de entrarmos propriamente no texto do evangelho de hoje devemos ter presente o acontecimento que o antecede, cuja relação intrínseca é reforçada pelo evangelista quando afirma: “Jesus, ouvindo isso, partiu dali…” (14,13). E o que Jesus ouviu? O relato do martírio de João Batista, tramado e realizado durante o banquete da festa de aniversário de Herodes (14,3-12). Na verdade, o evangelho de hoje deve ser lido em paralelo com esse fato, pois torna-se evidente a contradição entre os dois banquetes que, por sua vez, revelam dois reinos diferentes: o reino dos homens, marcado pela violência que produz morte, e o Reino de Deus, marcado pela vida que se multiplica.

O evangelista constrói um contraste deliberado: o Banquete de Herodes se dá nas proximidades do cárcere, espaço de opressão, onde estava preso o profeta que denunciou o pecado do rei; por ocasião do aniversário do Herodes, cujo poder arbitrário é de manipulação, sedução, medo, decreta-se a morte do arauto da verdade cuja cabeça na bandeja se torna simbolicamente o principal alimento da voraz maldade dos seus inimigos; a decapitação de João é símbolo de uma sociedade que se nutre da morte do justo e do ódio à verdade. A grande ironia dessa celebração da vida do rei é a sua conclusão, isto é, a morte do profeta, revelando a esterilidade do poder que se volta contra a Lei e contra os profetas. Herodes, que deveria respeitar o Direito e praticar a Justiça, torna-se cúmplice da infidelidade e da injustiça.

Por outro lado, temos o Banquete de Jesus, que apesar de se realizar em “um lugar deserto”, além-mar, geografia pascal, espaço de passagem e de revelação, congrega uma multidão de pessoas. Jesus manifesta-lhes a sua compaixão na acolhida, no ensinamento, na partilha, na bênção. O alimento, o pão multiplicado, é fruto da ação de Deus e da colaboração humana, e tem como resultado o anúncio da vida em abundância, pois é antecipação da Eucaristia, sinal do Reino que se inaugura.

Jesus, o Messias esperado, realiza o que as profecias anunciavam, isto é, no deserto, Deus alimenta o seu povo; quando Deus intervém, a vida floresce onde antes havia desolação. Os gestos de Jesus de tomar, erguer os olhos, abençoar, partir, distribuir são os mesmos da Última Ceia. O banquete no deserto é, portanto, uma pré-figuração da Páscoa, que implica uma referência direta à morte de Jesus, que oferece a sua vida para que todos tenham vida. O banquete de Jesus se opõe essencialmente ao banquete de Herodes no qual a oferta aos convivas foi a cabeça do profeta no prato para saciar a fome de vingança, enquanto o banquete de Jesus foi oferta abundante para alimentar o povo não apenas de pão material, mas de esperança de vida plena.

Todos os evangelistas, com suas respectivas nuances teológicas, narram a multiplicação dos pães como sinal que revela a ação divina que valoriza a participação humana, um sinal messiânico, uma antecipação da Páscoa e da Eucaristia, e não uma narrativa pedagógica descrever uma dinâmica sociológica de solidariedade espontânea ou uma técnica de partilha equitativa, nem muito menos para sugerir que Jesus tenha improvisado um piquenique no deserto.

A leitura racionalista-liberal, ao tentar “domesticar” o milagre, acaba por neutralizar o caráter revelador do gesto de Jesus, esvaziando toda a perspectiva de fé, que não significa aceitação ingênua do que não se consegue explicar, mas um olhar profundo que admite com humildade que não somos critérios absolutos de interpretação da realidade que nos transcende, mas que nos envolve no mistério de Deus, não tanto para enquadrá-lo em nossas categorias teóricas, mas para fazermos experiência do seu amor.

Se no banquete de Herodes o ato humano da dança da sua enteada tornou-se um espetáculo precursor da morte, no banquete de Jesus, a generosidade humilde do pouco ofertado, favoreceu a ação transformadora de Deus em abundância. Sem essa oferta humana, não haveria milagre; Deus não fez cair pão do céu, mas multiplicou os poucos pães da terra; sem oferta generosa do pouco, a bênção não produz abundância. Portanto, o culto verdadeiro é sempre teândrico, isto é, Deus age, mas o homem oferece.

Embora haja paralelo com o banquete de Herodes, como dissemos, a multiplicação dos pães não depende exclusivamente dessa comparação para ser compreendida. Pois ela possui uma estrutura litúrgica própria, um simbolismo pascal, uma linguagem eucarística, ressonâncias do Êxodo, eco das promessas proféticas de abundância messiânica. O texto tem caráter de sinal, não é uma lição moral, mas uma revelação. Se admitimos que o martírio de João é histórico, o milagre não poderia ser diferente. Assim como ninguém interpreta o martírio de João como metáfora, também não se deve interpretar a multiplicação dos pães como uma “técnica pedagógica de partilha”.

A leitura racionalista-liberal cai em três equívocos: supondo que o milagre é inaceitável para a razão moderna, tenta “explicá-lo” sociologicamente; confunde o sentido teológico com o mecanismo físico, como se o evangelista estivesse preocupado com o “como” e não com o “quem”; e reduz o texto a moralismo, como se Jesus estivesse apenas ensinando boas práticas comunitárias.

Mateus não está narrando uma aula de cidadania; está narrando a irrupção do Reino. A partilha é consequência do milagre, não a sua causa. A leitura reducionista defende que as pessoas individualmente tinham comida escondida, mas ao verem o gesto de Jesus, decidiram compartilhar. Essa leitura contradiz o texto em vários níveis, pois as multidões estavam famintas, compreende-se que não havia reservas ocultas; os discípulos reconhecem a insuficiência: “Só temos isto”. Jesus toma, abençoa, parte, dá, e o resultado é superabundância, não mera suficiência. A narrativa enfatiza que todos comeram e ficaram saciados; a partilha é fruto da graça, não substituto dela.

Ao tentar tornar o texto “mais compreensível”, essa leitura elimina o caráter messiânico, apaga a dimensão sacramental, deforma o sinal, transforma o milagre em metáfora, e reduz o evangelho a ética horizontal. É uma hermenêutica que não suporta o sobrenatural, então o reinterpreta até desaparecer. Mas o evangelho não é um manual de boas práticas sociais, é a narrativa da ação de Deus na história.

Mateus quer mostrar é que, no Reino de Deus, a vida não é apenas preservada, mas ela é multiplicada. Onde o poder humano produz morte, o Messias produz abundância.

A Eucaristia que celebramos não é comparação teatral, mas atualização da entrega generosa do Filho de Deus, e isso não é metáfora, é uma realidade na qual cremos e anunciamos. Na Eucaristia aprendemos a crer na verdade da ação de Deus na vida do seu povo e como devemos viver verdadeiramente as consequências dessa fé, ofertando generosamente, ainda que seja o pouco que temos, mas crendo que Deus pode transformar tudo para que nos saciemos abundantemente.

____________________

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana