Solenidade de N. Sra. Aparecida (Jo 2,1-11) – O pedido da Mãe para obedecer ao Filho

A Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida mais do que uma simples comemoração mariana, é na verdade, uma espécie de síntese espiritual da alma brasileira que foi se formando ao longo de três séculos. O povo brasileiro reconhece nela uma presença que acompanha, consola, protege e inspira. Por isso a chamamos com tanto carinho e devoção: “Mãe de Deus e nossa”, que não é apenas inspiração poética, mas expressão de uma experiência viva de fé.

Na primeira leitura, a Rainha Ester aparece como modelo de intercessora no Antigo Testamento; alguém que se preocupa com a situação do seu povo ameaçado, e diante dos privilégios que tinha por ser rainha, com coragem se aproxima do rei para interceder, para impedir a fim de que o seu povo não pereça.

A liturgia de hoje apresenta Maria como a nova Ester, que não apenas pede ao rei que livre seu povo do extermínio, mas que com o seu sim colaborou na realização do plano de Deus, aceitando ser a mãe do Filho de Deus, cujo reino não terá fim. Ester aparece diante do rei não por vaidade, mas por missão. Ela se expõe, arrisca-se, coloca-se em vulnerabilidade para salvar o seu povo. Maria, a nova Ester, aparece para interceder.

A imagem encontrada nas águas não é um espetáculo, mas um gesto de Deus que revela a missão da Mãe: estar onde o povo sofre, onde o povo clama, onde o povo precisa ser defendido. Ester é revestida de vestes reais, Maria é revestida do sol. A realeza de Ester é simbólica, a de Maria é cósmica, porque sua missão toca a história da salvação inteira. Ester pede a vida do seu povo, Maria apresenta ao povo Aquele que tem o poder de salvar, de dar a vida eterna.

Aparecida se tornou tão profundamente nossa, ela é a Mãe que se coloca diante do Rei não para si, mas para nós; não aparece para atrair atenções para si, mas como mulher fiel à sua vocação e missão, aponta sempre para o seu Filho; não surge para ser vaidosamente admirada, mas para servir; não se manifesta para ser exaltada, mas para interceder.

Quando a Igreja proclama na segunda leitura: “Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida do sol…”, ela está dizendo que toda manifestação de Maria, seja na Escritura, na Tradição ou na devoção do povo, é sempre um sinal, nunca um fim em si mesma. Ela não aparece para ser vista, mas para que o seu povo seja visto.

Maria é Aparecida porque, adornada de tanta beleza pelo próprio Deus, seria um desperdício manter-se escondida. Seria um precioso perfume encerrado num frasco, e, por conseguinte, ninguém dele usufruiria o bom odor. Seria uma obra prima de valor inestimável abandonada no sótão de uma pinacoteca, cujo autor não seria conhecido nem admirado. O próprio Jesus afirma que ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo da mesa, mas a coloca num lugar alto para que a sua luz apareça, brilhe e ilumine.

Maria é a criatura humana por excelência, através da qual o Deus invisível, cujo esplendor e beleza superam a capacidade humana de perceber, quis que um pouco dessa sua grandiosidade refletisse nas suas criaturas. Em Maria, criatura humilde e fiel, temos a obra prima de Deus, que se não aparece não o seu autor não seria conhecido e amado.

Em Caná, como em Aparecida, a lógica é a mesma: a Mãe não ocupa o lugar do Filho, mas cria espaço para que Ele se manifeste, como conclui o próprio evangelista: “Este foi o princípio dos sinais: Jesus manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele.”

A glória aparece, a fé aparece, a missão aparece.

“E a Mãe de Jesus está lá”, não como protagonista, mas como porta de entrada para o primeiro sinal. Ela percebe a falta, identifica a dor, lê o momento. E quando a alegria desaparece da festa (simbolismo do vinho), ela aparece diante do Filho, não para substituí-lo, nem para resolver por conta própria. Mas para provocar o início da missão. Revela-se aqui a pedagogia de Maria: vê o que falta: “Eles não têm mais vinho”. É a primeira a perceber a ausência da alegria; dirige-se ao Filho, não aos servos, nem ao mestre-sala, pois ela sabe em quem confiar absolutamente; por fim, conduz ao discipulado: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Aqui está o núcleo da sua missão: aparecer para que Ele seja obedecido. Maria não aparece para ser vista, mas para que a Palavra seja ouvida. Não aparece para ocupar centro da celebração, mas para que a fé seja despertada. Não aparece para ofuscar a glória do Filho, mas para que a glória dele se manifeste.

O que aconteceu em Caná acontece espiritualmente no Brasil: quando o povo perde o “vinho” (esperança, dignidade, paz), Maria aparece; quando a festa da vida parece ameaçada, Maria aparece; quando o coração brasileiro se vê sem alegria, Maria aparece.

E sempre com a mesma mensagem: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Aparecida é Caná para nós, é o lugar onde a Mãe se faz presente para reacender a missão do Filho. É o sinal que desperta o primeiro amor, a primeira fé, o primeiro seguimento.

É preciso que ela continue aparecendo, não como espetáculo, mas como mãe que aponta o caminho, como discípula que ensina a obedecer, como intercessora que nos devolve ao Filho.

Chamá-la de Aparecida é reconhecer que Deus se manifesta onde menos esperamos. Chamá-la de Mãe é renovar a certeza de que não caminhamos sozinhos. Chamá-la de nossa é confirmar que não somos órfãos ou filhos abandonados, mas que somos um povo que encontra consolo e identidade na fé, amparados e protegidos por seu amor materno.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana