29º Domingo Tempo Comum (Mt 22,15-21) – A quem preferis: Deus ou César?

A cena do evangelho de hoje ilustra a mudança de estratégia dos adversários de Jesus; não se confrontam mais diretamente, mas armam uma cilada: “Apanhar Jesus em alguma palavra”. O verbo (grego: pagideuo) significa “armar uma cilada”, “capturar numa armadilha”. Não se trata de um diálogo sincero, mas de uma emboscada cuidadosamente planejada.

O grupo, apesar de dizer a verdade sobre Jesus: “Sabemos que és verdadeiro…” tem intenções falsas. O elogio tem o seu ápice na afirmação: “Não julgas um homem pelas aparências”, literalmente: “não olhas para o rosto das pessoas” (grego: ou blépeis eis prósopon anthópon); trata-se de um semitismo que significa “não fazes acepção de pessoas”, por conseguinte, não é hipócrita. Reconhecem que Jesus não se deixa influenciar por prestígio ou poder. Contudo, a pergunta capciosa denuncia a má-intenção dos opositores de Jesus: “É lícito pagar o tributo a César ou não?” A expressão “é lícito” (grego: eksestin) revela que a questão é apresentada como um problema religioso e moral, não apenas econômico.

A questão do tributo a César não nasce de uma busca sincera pela verdade, mas da tentativa de comprometer Jesus politicamente. O tema central, porém, não é o imposto em si, mas a identidade e a lealdade que pertencem a Deus. Por isso, Jesus os declara: “Hipócritas!” O termo grego originalmente designava atores de teatro que usavam máscaras. No Evangelho, indica aqueles cuja aparência exterior não corresponde à realidade interior. Se por um lado, afirmam que Jesus é verdadeiro; na pergunta que fazem, denunciam a própria hipocrisia (mascarados de comprometidos com o bem comum do povo, oprimidos por uma carga pesa de tributos).

“Por que me tentais?” O verbo grego (peiradzo) é o mesmo utilizado para as tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1). Mateus sugere que, por trás dos adversários humanos, está a mesma oposição ao projeto de Deus já vista na tentação diabólica. O fato de discípulos dos fariseus e partidários de Herodes se unirem nesse projeto revela a sua hipocrisia (ação teatral), pois ambos assumiam posições opostas em relação à dominação romana. Enquanto os fariseus alimentavam a esperança da vinda de um Messias que os libertasse do poder estrangeiro e pagão, os herodianos colaboravam com os romanos para preservar seu status político, ainda que limitado e constantemente vigiado.

Como autêntico Mestre, Jesus não responde simplesmente sim ou não, mas aproveita a ocasião para desmascarar a hipocrisia dos adversários (vv. 15-17) que, dependendo da sua resposta, pretendiam provocar um conflito entre Jesus e o povo ou Jesus e o Império Romano; o momento também revela a sabedoria de Jesus (vv. 18-21a) que, ao pedir a moeda do imposto, mostra que eles mesmos utilizam a moeda imperial. A pergunta sobre a imagem e a inscrição prepara a resposta decisiva: a primazia de Deus (v. 21b): “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Jesus reconhece uma legitimidade relativa das autoridades civis. Contudo, estabelece um limite: o ser humano pertence integralmente a Deus, pois traz em si a sua imagem e semelhança. Por isso a pergunta: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” Dois termos são fundamentais: figura (eikon: imagem) que remete imediatamente ao relato da criação: “Façamos o ser humano à nossa imagem” (Gn 1,26 LXX). Nesse contexto, a palavra tem um significado teológico muito mais profundo do que uma simples efígie imperial. A imagem de César foi feita por ele, enquanto a verdadeira imagem foi feita por Deus, o homem livre; não a imagem de César, mas a imagem do Criador.

O segundo termo importante é “inscrição” (epigraphé), refere-se à legenda gravada na moeda; uma inscrição que apresentava o imperador como filho do divino Augusto, algo problemático para a fé judaica.

Mateus mostra que Jesus não entra no jogo político de seus adversários. Em vez de escolher entre revolução ou submissão, ele eleva o debate para a questão fundamental: quem é o verdadeiro Senhor da vida humana? A resposta do Evangelho é clara: toda autoridade humana é relativa; somente Deus possui soberania absoluta.

A tradução habitual é: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Contudo, o verbo utilizado não é simplesmente “dar”, em grego apodídomi significa devolver, restituir, entregar aquilo que pertence a alguém. Jesus, com isso, não afirma que César possui autoridade absoluta, mas reconhece que aquilo que traz sua imagem lhe pode ser restituído. Por outro lado, “e as coisas de Deus, a Deus”. À luz de Gn 1,26-27, a resposta é evidente: se a moeda traz a imagem de César, ela pertence a César; mas o ser humano traz a imagem de Deus, logo, o ser humano pertence a Deus.

A moeda pertence ao imperador porque ostenta sua imagem; o ser humano pertence a Deus porque foi criado à sua imagem. Assim, a sentença de Jesus não legitima incondicionalmente o poder político, mas proclama que toda autoridade terrena é relativa, pois a pertença última da pessoa humana é exclusivamente de Deus. Jesus nos recorda que carregamos a imagem de Deus.

O dinheiro pode trazer a imagem de César e voltar para César; mas nós trazemos a imagem do Criador e, por isso, pertencemos a Ele. O discípulo de Cristo é um cidadão responsável, mas sabe que sua identidade mais profunda não está no Estado, no partido, na profissão ou no patrimônio; sua vida pertence a Deus, de quem recebeu a dignidade e para quem caminha.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana