Solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus: “Crer na comunhão dos santos!” (Mt 5,1-12a)

A Solenidade de hoje é uma ocasião propícia para aprofundar a fé na comunhão dos santos. O Vat II afirma: “Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Por esta santidade promove-se também na sociedade terrena um teor de vida mais humano” (LG,40). Quando professamos: “Creio na comunhão dos santos”, estamos afirmando que ninguém caminha sozinho no caminho da santidade.

A comunhão dos santos une a Igreja em três dimensões: a Igreja peregrina na terra, que somos nós; a Igreja padecente, aqueles que se purificam para entrar na glória; e a Igreja gloriosa, os santos e santas que já contemplam Deus face a face. Entre todos existe uma profunda comunhão de amor, de oração e de auxílio espiritual.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que “todos os fiéis formam um só corpo” em Cristo (947). Por isso, não existe santidade isolada. Cada passo que damos na direção de Deus fortalece também nossos irmãos e irmãs; misteriosamente, cada bem que realizamos repercute em toda a Igreja.

  1. Gregório de Nissa diz que as Bem-aventuranças são como os degraus de uma escada que conduz ao céu. À luz dessa imagem, podemos compreender que Jesus, ao subir a montanha para proclamar as Bem-aventuranças, não apenas se deslocou, mas indicou um caminho de vida rumo à plena felicidade. A montanha torna-se símbolo da ascensão interior que todo discípulo é chamado a realizar. É o itinerário da santidade, da maturidade espiritual e da verdadeira felicidade.

As Bem-aventuranças são o itinerário de subida da montanha que Jesus nos convida a fazer. Ninguém chega ao cume de uma só vez; a caminhada acontece por etapas e exige confiança, perseverança e fidelidade. Jesus nos convida a deixar a planície do comodismo, da mediocridade, e apresenta as Bem-aventuranças como o mapa da subida. Ser pobre em espírito, ser manso, ser misericordioso, ter fome e sede de justiça, promover a paz, suportar perseguições por causa do Reino são degraus que elevam o coração humano. O mundo nos propõe outros caminhos para a felicidade. Porém, Jesus aponta um caminho diferente, que passa pela conversão do coração e pela configuração da nossa vida à sua própria vida. Importante reconhecer que a subida se configura no seguimento de seus passos; sem tornar-se discípulo, a santidade não será possível.

Na primeira etapa, aprendemos o desprendimento. Os pobres em espírito, os aflitos e os mansos são aqueles que abandonaram tudo aquilo que pesa e dificulta a subida (o apego aos bens, a autossuficiência e a falsa segurança). Descobriram que somente Deus pode sustentar a vida e conduzir ao verdadeiro cume. Vale salientar que a pobreza evangélica não é nenhum tipo de miséria (econômica, moral), que a aflição do discípulo não o leva ao desespero, nem a mansidão do crente é passividade ou resignação inativa.

Na segunda etapa, somos chamados à perseverança. Fome e sede representam a totalidade das necessidades do ser humano; a justiça não é simplesmente cumprir a lei, mas, antes de tudo, fazer a vontade de Deus. A misericórdia e a pureza de coração manifestam uma vida cada vez mais conforme à vontade de Deus. Quanto mais subimos, isto é, mais nos aproximamos da misericórdia de Deus, da qual devemos ser destinatários e instrumentos. À medida que avança a subida, o coração se purifica para enxergar melhor os irmãos, aprendendo a amá-los como Deus os ama.

Na terceira etapa, a santidade torna-se missão. Os promotores da paz e os perseguidos por causa da justiça descem à realidade do mundo para testemunhar. O discípulo não sobe a montanha para fugir da história, mas para ser transformado pela força do Evangelho, e ser instrumento de transformação de tudo o que se opõe à implantação do Reino de Deus, por isso assume o destino do seu Senhor: a perseguição, sofrimento, a morte.

Nessa caminhada-subida ninguém está sozinho. É aqui que compreendemos o que professamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos”. Todos os batizados formam uma única família em Cristo. Os santos que já alcançaram o cume da montanha intercedem por nós; nós caminhamos sustentados por seu exemplo; e rezamos também por aqueles que ainda estão sendo purificados. Somos uma só Igreja, unida na terra e no céu. Por isso, a subida das Bem-aventuranças não é uma aventura solitária. À nossa frente está o próprio Cristo, o Bem-aventurado por excelência, acompanhado pelos apóstolos, os mártires e todos os santos e santas. Ao nosso lado estão os irmãos e irmãs que compartilham a mesma fé.

Ser santo é aceitar diariamente o convite de Jesus para subir essa montanha. E, perseverando na comunhão da Igreja e na prática das Bem-aventuranças, teremos a alegria de ouvir um dia a promessa do Senhor: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12).

A comunhão dos santos é, portanto, um motivo de esperança. Quando nos sentimos fracos, lembramos que a Igreja do céu intercede por nós; quando rezamos pelos falecidos, exercemos a caridade que supera as barreiras da morte; quando participamos da Eucaristia, experimentamos de modo privilegiado essa comunhão que une céu e terra ao redor de Cristo.

Por isso, professar a comunhão dos santos é reconhecer que a santidade não é privilégio de alguns, mas vocação de todos, e que Deus nos uniu numa grande família espiritual para nos ajudar a alcançar o cume da montanha, onde nos espera a felicidade plena em sua presença.

 

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana