O evangelho de hoje, a Parábola do Banquete Nupcial, integra a seção das controvérsias entre Jesus e as autoridades de Jerusalém (Mt 21-22), logos após as parábolas dos dois filhos (26º Domingo) e dos vinhateiros homicidas (27º Domingo). Essas três parábolas formam um tríptico que denuncia a infidelidade de Israel (especialmente seus líderes) e anuncia a substituição dos primeiros convidados por novos participantes do Reino. O texto está articulado em três momentos: convite rejeitado pelos primeiros convidados (vv. 1-7), convite ampliado a todos os que se encontram nas encruzilhadas dos caminhos (vv. 8-10), e a exigência do traje nupcial (vv. 11-14)
O “Banquete de casamento” remete à imagem profética da aliança entre Deus e Israel (Os 2; Is 54; Ez 16). No NT, o casamento simboliza a união Cristo-Igreja (Ef 5,25-32) e anuncia o banquete escatológico (Ap 19,7-9). O convite inicial rejeitado simboliza a rejeição de Israel ao chamado profético; o convite universal revela que todos são chamados, bons e maus; o homem sem a veste representa quem aceita o convite, mas não aceita as condições necessárias para participar dele.
Poderíamos nos perguntar como é possível alguém que fora convidado de surpresa na esquina da rua para uma festa, da qual não tinha nem conhecimento prévio, poderia se preparar adequadamente (vestes festivas) para aquelas bodas?
Há textos antigos da Mesopotâmia que falam do costume dos reis de presentear, à entrada da sala da festa, uma veste a cada convidado. Em banquetes reais ou de grande prestígio, o anfitrião fornecia roupas adequadas aos convidados. Isso garantia igualdade, decoro e honra ao evento. A veste era um sinal de aceitação do convite e de respeito ao anfitrião (cf. Ap 3,5).
No contexto da parábola, essa veste representa a ação de Deus, tudo o que Ele oferece e dispõe para que a humanidade se prepare para participar do seu banquete (a sua Palavra, a sua graça santificante, a presença do seu Espírito etc.). Na Bíblia usa-se o simbolismo das vestes para falar da proteção divina: “Vestiu-me com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça” (Is 61,10; Ap 19,8; 22,14). Por exemplo, na parábola do Pai misericordioso, ao receber o filho arrependido, antes mesmo de entrar em casa e fazer a festa, o pai manda buscar a melhor túnica para vesti-lo (Lc 15,22).
Deus é quem toma a iniciativa, prepara, convida, insiste, envia mensageiros. A salvação é dom. A recusa, por sua vez, é fruto da indiferença: os primeiros convidados não são hostis, mas distraídos. Contudo, a rejeição não impede que o banquete se realize; a missão se expande aos que estão “nas encruzilhadas dos caminhos”: os pagãos, pecadores, excluídos sociais. Por outro lado, a parábola evidencia uma verdade fundamental: estar dentro da comunidade não é garantia automática de salvação. É necessário acolher o traje de festa, isto é, a conversão, a prática da justiça, vida coerente com o Evangelho.
O rei não se admira porque aquele convidado desconhecido está na sala do casamento, mas porque entrou ali sem as vestes da festa, isto é, porque rejeitou o dom imprescindível para participar. A sua atitude arrogante não se diferencia dos primeiros convidados que “não deram atenção”. Assim, como os primeiros foram para os seus campos ou negócios, este também permaneceu no seu “mundo”, fechado ao dom da salvação, apesar de aparentemente ter aceitado participar da festa.
Ao ser perguntado como tinha entrado ali sem as vestes, o “homem nada respondeu” (em grego: ephimothn emudeceu, do verbo colocar uma mordaça, amarrar o focinho, um cabresto); ele represente o ser humano que, apesar das inúmeras iniciativas de Deus, da sua misericórdia, não quer se converter e, por isso, se parece “como cavalo ou o jumento, que não compreende, que só com rédea e freio submetem seus ímpetos…” (Sl 32,9).
Ser colocado para fora da sala do casamento é atitude arbitrária e injusta do rei, mas uma consequência natural de quem não aceitou as condições para entrar nela, pois não basta apenas querer entrar no Reino dos céus, mas é preciso buscá-lo antes de tudo e a sua justiça. E a justiça do reino é fazer a vontade de Deus (cf. Mt 6,33; 7,21).
Sem dúvida, todos queremos entrar para o banquete do rei, mas nem sempre estamos dispostos a nos despirmos do egoísmo, das atitudes antievangélicas, do pecado. E quando somos desafiados à conversão, tantas vezes preferimos o silêncio, modo covarde e arrogante de indiferença diante das exigências de mudança de vida, próprias da conversão ao evangelho. Revestir o evangelho com nossas vestes é mais cômodo e talvez garanta uma casa cheia. Mas sem nos revestirmos do evangelho não poderemos participar plenamente do banquete da vida.
A conclusão da parábola: “Pois muitos são chamados, e poucos escolhidos” sintetiza a teologia do evangelho de Mateus: Deus chama todos, mas a resposta se manifesta na prática da vontade do Pai (cf. Mt 7,21)
O Reino é festa, mas exige o traje adequado, isto é, a vida transformada. A graça é dom, mas atua se a acolhermos. São Leão Magno afirma: “o traje é a virtude da caridade: portanto, entra nas bodas, mas sem as vestes, que tem fé na Igreja, mas não possui a caridade” (in Homilia dos evangelhos, 36).







