27º Domingo Tempo Comum (Mt 21,33-43) – Produzir frutos, sem usurpá-los

O evangelho de hoje, a Parábola dos Vinhateiros homicidas, é a segunda de três parábolas dirigidas aos sumos sacerdotes e anciãos (21,23), após a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém (21,1-11); todas têm forte caráter de juízo (os dois filhos: 21,28-32; os vinhateiros homicidas: 21,33-43; o banquete nupcial: 22,1-14). A parábola hodierna responde à pergunta sobre a autoridade de Jesus (21,23-27) que, por sua vez, revela que a verdadeira autoridade vem de Deus e que os líderes a perderam por infidelidade.

Jesus não está apenas narrando uma história, Ele está desmascarando uma estrutura de poder que se afastou completamente da vontade de Deus. Portanto, a parábola evidencia a infidelidade dos líderes, isto é, os sumos sacerdotes e anciãos que deveriam cuidar da vinha (o povo), mas que a transformaram em instrumento de poder, controle e vantagem pessoal, desviando-se da missão que lhes confiada. Ao invés de servirem ao dono da vinha, comportaram-se como seus donos, como se a vinha lhes pertencesse; a atitude de rejeição dos trabalhadores, na verdade, é uma violência espiritual, pois não aceitam os enviados os enviados de Deus, os profetas e, por fim, o próprio Filho.

Por outro lado, Jesus antes de falar da infidelidade dos líderes, revela o coração do Pai, um Deus que prepara a vinha com cuidado: cerca, limpa, planta, constrói uma torre, cava um lagar, e confiando-a a trabalhadores, não para dominá-la, mas para fazê-la frutificar. Jesus constrói a narrativa com elementos que remetem ao cântico da vinha de Isaías 5: uma plantação cuidadosa que expressa o amor e a eleição de Deus por Israel; o simbolismo: cercas, torre, lagar indicam proteção, vigilância e expectativa de frutos. (Importante manter a descontinuidade: em Isaías, a vinha produz frutos ruins; na parábola, o destaque negativo não está na vinha, mas nos administradores. Assim, a crítica desloca-se do povo para seus líderes).

O fato de arrendar a vinha demonstra a confiança do seu dono e a responsabilidade delegada aos líderes; o envio de servos testemunha a insistência divina na conversão; e o envio do Filho é o clímax da revelação e da rejeição. Na verdade, a parábola é uma releitura profética da história de Israel. Ademais, ao afirmar que os vinhateiros expulsam o Filho da vinha (grego: exebalon, lançar fora), Mateus faz uma referência explícita à morte de Jesus, que será levado para fora da cidade para ser crucificado (forte paralelo com 27,31-33).

Contudo, mesmo os vinhateiros se tornando usurpadores, pois a ambição transforma servidores em déspotas, e quando o coração se desvia, a missão vira posse, o serviço vira domínio, e o cuidado vira exploração, Deus não desiste da sua vinha, envia-lhe mensageiros repetidas vezes. E num gesto extremo de amor, envia o Filho, o herdeiro. A parábola é, ao mesmo tempo, denúncia e declaração de amor.

Apesar da rejeição dos líderes, a vinha não fica abandonada, Deus a entrega a outros trabalhadores, aqueles que produzirão frutos. Aqui Jesus abre a porta para os pobres, os pequenos, os que acolhem o evangelho; e, no horizonte da história, para a comunidade cristã que nasce da fé no Filho rejeitado.

A reação dos vinhateiros infiéis e homicidas: “Este é o herdeiro; vamos matá-lo” revela a profundidade da corrupção; não é simples ignorância, mas rebelião consciente contra Deus, pois mesmo tendo consciência da identidade do Filho, assumem a decisão deliberada de usurpar o lugar de Deus, é a corrupção extrema da liderança.

Por outro lado, a paciência divina contrasta com a brutalidade humana. Com a pergunta: “O que fará o dono da vinha?” Jesus anuncia uma verdadeira reviravolta: realização do juízo e nova administração da vinha: os líderes serão destituídos, e a vinha será entregue a outros trabalhadores que produzam frutos. Aqui se abre a dimensão escatológica, isto é, a comunidade que acolhe Jesus (incluindo pagãos) torna-se o novo povo que produz frutos; não é substituição étnica, mas substituição de atitude: Deus confia sua vinha a quem lhe é fiel.

Jesus conclui com o Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”, para reafirmar que os “construtores” são os líderes religiosos, e que a “pedra” é ele mesmo, rejeitado, mas exaltado por Deus. A “pedra angular” é fundamento de uma nova realidade: o Reino. Na verdade, a rejeição humana não impede o plano divino, ao contrário, torna-se ocasião de revelação.

A parábola nos chama a uma espiritualidade de desapropriação: servir sem possuir, conduzir sem dominar, liderar sem se apropriar. Por conseguinte, a comunidade deve aprender a discernir quando estruturas, práticas ou lideranças se afastam do Evangelho e precisam ser purificadas. Uma comunidade pode estar cheia de atividades e vazia de frutos; estar cheia de pessoas empenhadas em muitas atividades, mas vazia de Evangelho, de testemunhos convincentes.

Na parábola, os vinhateiros rejeitam o Filho e o matam. Eles transformam aquilo que deveria ser instrumento de cuidado em instrumento de violência. Deus nunca entrega pedras para serem armas, mas para serem fundamentos, apoio, abrigo, ponte.

 

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana