Apesar de Jesus ter feito muitos ensinamentos sobre a oração, inclusive ensinando a rezar, não encontramos nos evangelhos muitos registros do conteúdo da sua oração. Porém, é possível identificar alguns aspectos importantes dessa sua experiência que justificam a ausência de registros. Antes de tudo, Jesus rezava em segredo (de madrugada, no monte, no deserto, à parte dos discípulos). Os evangelistas perceberam que na experiência de oração de Jesus eram mais importantes as atitudes do que uma coletânea de palavras. O evangelho de hoje é uma dessas raras ocasiões em que se escuta o que Jesus reza: “Eu te louvo ó Pai…”. Dois elementos importantes na relação com Deus: a intimidade e a gratidão. A oração de Jesus se enraíza na própria tradição orante de Israel que, fazendo memória das maravilhas de Deus, o reconhece como criador de tudo: “Senhor do céu e da terra”. A ação de graças de Jesus não fica apenas nas palavras de gratidão, mas diz o seu motivo, isto é, a revelação mútua Pai-Filho, para em seguida, fazer o convite aos cansados para que encontrem descanso, tornando-se seus discípulos. “Eu te louvo” (grego: exomologoumai soi) significa confessar, proclamar publicamente; louvor público, quase litúrgico.
O fato de Deus esconder (grego: ekrypsas) aos sábios “estas coisas”, não significa que Ele queira excluí-los da revelação, mas a atitude interior de autossuficiência tornou-os incapazes de acolher a comunicação de Deus que se faz na simplicidade. Em outras palavras, é um modo semita de dizer que Deus “faz” aquilo que Ele permite acontecer pela liberdade humana. “Sábios e entendidos” (grego: sophoi/synetoi): instruídos, especialistas, inteligentes, perspicazes, “os que entendem”. Para Mateus, são as elites religiosas, autossuficientes, os que se consideravam conhecedores de tudo, e, portanto, não eram capazes de apreender numa perspectiva sapiencial (arrogância espiritual). “Pequeninos” (grego: nēpioi), literalmente: “crianças pequenas”, “incapazes de falar”, e, portanto, abertos, receptivos, não-autossuficientes.
Deus faz assim porque é do seu agrado (grego: eudokia); pela sua vontade amorosa, e não arbitrária; coerente com seu modo de agir. A oração de Jesus é humilde, mas não nega a sua autoridade: “Tudo me foi entregue” (grego: paredothē, do verbo paradidōmi: entregar, confiar, transmitir). Afirma-se aqui a autoridade recebida, a missão confiada, a intimidade absoluta entre Pai e Filho, fundamentada no conhecimento mútuo. Esse conhecer (grego: epiginōskein) não tem sentido intelectual, mas conhecimento pleno, íntimo, fruto de relacionamento. Isso implica comunhão, experiência e reciprocidade. Pai e Filho se conhecem nesse sentido profundo, e Jesus introduz os discípulos nesse conhecimento: “Vinde a mim” (grego: deute pros me).
Esta expressão já se encontra na literatura sapiencial como convite usado por mestres de sabedoria. Contudo, aqui é única, pois Jesus não convida para uma doutrina, mas para si mesmo. É um chamado relacional, não apenas moral.
“Cansados e sobrecarregados” (grego: kopiōntes/pephortismenoi): cansados pelo trabalho duro, exaustos; carregados com fardos pesados. Num horizonte semântico cultural do tempo pode significar opressão econômica (impostos, trabalho forçado), fardos religiosos (cf. Mt 23,4), ou culpas e exigências internas. Na verdade, Jesus fala a quem está esmagado por sistemas e por si mesmo.
“Eu vos aliviarei” (grego: anapausō), no sentido de dar descanso, repouso, refrigério. No Antigo Testamento, o descanso é, antes de tudo, aquele prometido por Deus (Êx 33,14): descanso sabático, descanso messiânico. Nas palavras de Jesus, ele mesmo é a fonte do descanso.
Contudo, coloca uma condição: “Tomai sobre vós o meu jugo” (grego: arate ton zygon mou). Jugo pode ser canga, mas também uma lei, um ensinamento, um estilo de vida. Na verdade, Jesus não remove todo o jugo, mas troca o jugo opressor pelo jugo do discipulado: “Aprendei de mim” (grego: mathete ap’ emou), isto é, tornar-se discípulo. O Discipulado mais do que aprender um conteúdo, é assumir o modo de ser de Jesus: “Sou manso e humilde de coração” (grego: praus/ tapeinos). Manso no sentido de não violento, gentil; humilde porque não é arrogante. Podemos dizer que estamos diante dos atributos divinos em Jesus. “Meu jugo é suave” (grego: chrēstos), isto é, bondoso, útil, gentil, benevolente. “Meu fardo é leve” (grego: elaphron), ou seja, que não esmaga, não oprime, pois é compatível com a vida.
Nesta simples, mas profunda oração de Jesus, encontramos as verdades fundamentais do seu ensinamento: a revelação é dom, não conquista intelectual. Ele é o mediador exclusivo do conhecimento do Pai, que nos convida a estabelecer um relacionamento e não apenas adquirir conhecimento, a fim de que se encontre o descanso salvífico e não puramente aquele psicológico.
Tornar-se discípulo de Jesus não é isentar-se de compromissos na vida, dificuldades ou exigências, mas assumir o seu estilo de vida, a sua cruz, mas sabendo que não será oprimido, porque Ele é leve, manso e humilde. O discipulado é aprendizado existencial, não apenas moral. Que a nossa oração, inspirada na experiência orante do Mestre Jesus, seja antes de tudo ação de graças e, ao mesmo tempo, testemunho de que estamos seguindo seus passos.









