Logo depois de Pedro reconhecer Jesus como o Cristo (21º DTC), Jesus lhe revela o que significa, na verdade, ser o Messias, desmontando todas as expectativas humanas, triunfalistas de glória, poder e prestígio. Pois Ele é o servo que passará pelo sofrimento, a cruz, a morte, mas vencerá tudo isso com a sua ressurreição. Com a profissão de fé de Pedro, o evangelho chega ao seu ponto fundamental no que diz respeito à revelação de Jesus como Messias, Filho de Deus; a partir de agora, inicia o caminho rumo à realização definitiva de sua missão: sofrer, ser morto e ressuscitar.
Por três vezes Jesus faz o anúncio da paixão (16,21; 17,22; 20,17), constituído de quatro elementos: ir a Jerusalém (o centro religioso e político), sofrer muito (rejeição das autoridades), ser morto (fracasso aparente), e ressuscitar ao terceiro dia (vitória final).
O anúncio é introduzido por uma expressão clássica: “Devia ir” (grego: dei). A cruz não é acidente; é necessidade divina. A reação de Pedro, natural a qualquer judeu, manifesta um verdadeiro escândalo; não admite que isso seja possível: “Deus não permita! Isso nunca te acontecerá!” Mas Jesus não deixa nenhuma dúvida, e corrige toda ambiguidade: “Vai para trás de mim, Satanás!” A reação de Pedro se assemelha à tentação de Satanás, que procura desviar Jesus da cruz; isso é pensar “como os homens”, não “como Deus”. Pedro quer um Messias sem sofrimento, uma glória sem cruz, dando a entender que se o destino do Mestre for esse, consequentemente o seria também para os seus discípulos. Na verdade, Pedro não deseja apenas que Jesus não passe pelo sofrimento e a morte, mas que ele próprio não tivesse de passar por esse mesmo caminho. A cena do evangelho revela duas concepções de Messias em conflito: A perspectiva de Pedro que espera um Messias glorioso, sem sofrimento, um discipulado confortável, e uma fé que evita conflitos. Enquanto a revelação de Jesus apresenta um Messias servo, fiel até o fim, um discipulado que assume consequências, e uma fé que confronta estruturas injustas.
Jesus identifica na reação de Pedro três aspectos ameaçadores: a tentação (“Satanás”, adversário); o escândalo (“pedra de tropeço”), a visão humana (“não pensas as coisas de Deus”); ainda que queira proteger Jesus, Pedro acaba se opondo ao plano salvífico; apesar de ter confessado ortodoxamente a fé em Jesus, não compreendeu ainda o seu caminho. Portanto, é possível se fazer uma proclamação teórica de fé e resistir ao modo como Deus age.
A reação de Jesus: “Vai para longe, Satanás” (tradução mais literal do grego: “Vai para atrás de mim”, opiso mou) não é simplesmente uma reprovação veemente àquilo que Pedro disse, mas um verdadeiro apelo de conversão. Ir para trás significa assumir a atitude de discípulo. O discipulado, portanto, exige disposição para seguir Jesus no caminho da cruz; não só Ele devia passar pela cruz, mas o seu discípulo também, devendo renunciar a si mesmo (abandonar o ego como centro), tomar a cruz (não é sofrimento qualquer; é assumir o caminho de Jesus, mesmo quando custa), e segui-lo (caminhar atrás dele, ao contrário de Pedro, que tentou ir “à frente”). Pedro se torna escândalo (pedra de tropeço) ao tentar impedir a cruz. O verdadeiro escândalo não é a cruz do Messias, mas a recusa da cruz por parte do seu discípulo. Por isso, Jesus insiste: “Quem quiser salvar a vida, a perderá; quem perder a vida por causa dele, a encontrará”. Essa lógica do Reino é inversa à lógica do mundo. De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a vida? Jesus confronta a ilusão de poder, sucesso e segurança, e declara que depois da cruz, vem a glória.
Seguir a Jesus é exigente, mas não é em vão. Porém, não se trata de um sofrimento genérico; mas fidelidade assumida até o fim. Seguir Jesus implica assumir sua missão e destino, pois o discipulado é participação, e não mera observação.
Diante do evangelho, todos nós que queremos viver com fidelidade o seguimento de Jesus, precisamos identificar as situações nas quais a nossa tentação é ir para frente de Dele, tentando corrigi-lo, quando tenta-se adaptar o Evangelho às conveniências, suavizando as suas exigências, evitando temas difíceis, preocupados mais com aplausos do que testemunhar a cruz, reduzindo o discipulado a formalidades, e ritos sem vida.
É preciso acolher o convite de Jesus: “Vá para atrás de mim”, não atrás de modismos, ideologias ou interesses. Tomar a cruz não é procurar sofrimento, mas não fugir da fidelidade quando ela custa assumir atitudes coerentes (defender a vida, denunciar injustiças, manter coerência ética, amar quando é difícil, servir sem reconhecimento).
O caminho do Mestre visa formar discípulos, não consumidores religiosos; valorizar processos, não eventos; priorizar conversão, não números. Quem deve ocupar o centro é Jesus, não o agente pastoral. Uma ação pastoral que busca apenas sobrevivência institucional perde o sentido; a pastoral que se entrega ao Evangelho encontra vida.
Quando o discípulo passa à frente do Mestre, perde a direção, e transforma Jesus em projeção de seus desejos.
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