23º Domingo Tempo Comum (Mt 18,15-20) – O perdão edifica a comunidade

Mateus organiza seu evangelho em cinco grandes discursos. O capítulo 18 é o quarto, dedicado à vida interna da comunidade. Ele trata de relações fraternas, cuidado dos pequenos, correção fraterna, perdão, autoridade comunitária, ou seja, o modo de viver como Igreja. Mateus apresenta a Igreja como comunidade de salvação, segundo a sua natureza sacramental: salva pela comunhão, cura pela correção, restaura pelo perdão e, com autoridade, faz discernimento em vista da sua edificação e missão.

Depois da profissão de fé de Pedro (21º Domingo), pedra fundamental sobre a qual Jesus edifica a sua Igreja, mas também de sua incompreensão em relação à missão do Messias que se realizará através da cruz (22º Domingo), hoje o evangelho apresenta um processo gradual de reconciliação dentro da comunidade cristã, fundamentado na responsabilidade mútua, na busca da conversão do irmão e na autoridade conferida por Cristo à Igreja.

A promessa final: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” não é genérica, mas contextualizada: Cristo está presente especialmente quando a comunidade se reúne para discernir, reconciliar e exercer autoridade espiritual.

“Se teu irmão pecar…” indica uma condição eventual; portanto, pode ser evitada. Por outro lado, fala-se de irmão, de um membro da comunidade, pois a relação fraterna é o fundamento da correção: “Vai corrigi-lo”.  Aqui o verbo grego (elénkson) tem sentido de mostrar a culpa, mas com intuito pedagógico, não punitivo, até porque o primeiro passo é em segrego: “em particular”, a fim de preservar a dignidade do irmão. Se o resultado for positivo: “Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão”, a reconciliação é sempre ganho, ninguém sai derrotado.

Porém, há a possibilidade de não ser ouvido, o que não significa desistir do processo de reconciliação. Mesmo assim se persistir no seu fechamento à reconciliação, deve-se tentar mais uma instância, a comunidade que, por sua vez, não age arbitrariamente: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvido, seja tratado como pagão ou pecador público”. Levando em consideração o modus operandi de Jesus em relação a essas pessoas, não se pode pensar numa expulsão definitiva, haja vista que no Evangelho, Jesus acolhe pagãos e publicano; na verdade, esse procedimento pedagógico indica ruptura relacional, mas não abandono da misericórdia.

A palavra-chave nessas situações é discernimento a partir da autoridade que a Igreja recebeu de ligar e desligar. O discernimento eclesial tem valor diante de Deus, e a oração deve alimentar a perseverança no processo de edificação da comunidade, sobretudo no compromisso de reconciliação. Por outro lado, a oração eficaz nasce da comunhão: “Se dois de vós estiverem de acordo na terra…”; não é promessa mágica, mas está ligada ao contexto da reconciliação.

Todo o processo de reconciliação em vista da edificação da comunidade só tem eficácia se Cristo estiver presente: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Trata-se não apenas de invocar, pedir, mas de agir segundo a identidade de Jesus. Portanto, é presença real, e não simplesmente simbólica. Cristo está no centro da comunidade que busca reconciliação e discernimento.

Em síntese, o ensinamento de Jesus reitera que a comunidade é espaço de reconciliação, que se alcança à medida que se pratica a correção fraterna como ato de amor, e não de controle. A autoridade da Igreja, participação na autoridade de Cristo (“Ligar e desligar”), significa discernir, orientar, decidir. Mais do que procedimentos estratégicos ou meramente fruto de esforços humanos, a reconciliação é um dom de Deus pedido na oração comunitária, cuja eficácia depende da harmonia entre os irmãos.

Como nos ensina o Mestre, a correção fraterna é indispensável para que a comunidade viva na comunhão e realize sua missão testemunhando a verdade da fraternidade cristã.  Contudo, deve ser gradual, discreta e orientada à conversão. A comunidade jamais deve ser um tribunal para condenar, mas um espaço para motivar a conversão. A autoridade eclesial deve ser exercida com misericórdia e verdade. Só a autêntica vida de oração pessoal e comunitária faz brotar a fraternidade real, garantindo a presença de Cristo que nos ensina a viver o Evangelho da reconciliação.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana