26º Domingo Tempo Comum (Mt 2,28-32) – A palavra se esvazia quando falta atitude

O evangelho de hoje se situa no contexto da última semana de Jesus em Jerusalém (Mt 21-28). Após a sua entrada triunfal e a purificação do Templo, Jesus enfrenta conflitos diretos com os chefes dos sacerdotes e anciãos que, por sua vez, questionam a sua autoridade (Mt 21,23‑27). Em resposta, Jesus conta três parábolas de julgamento, lidas na sequência dos três domingos (26º; 27º; 28º); meditamos hoje a primeira, cujo objetivo é revelar que a verdadeira obediência não está nas palavras, mas na prática da vontade de Deus.

No centro do evangelho encontra-se a pergunta decisiva de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do Pai?”. Como de costume, as perguntas de Jesus não apresentam dificuldades, são simples dada a evidência das respostas. Contudo, não basta apenas uma resposta teórica, mas o comprometimento moral diante da resposta dada. A parábola revela que não basta dizer “sim” a Deus com palavras, é preciso converter o coração e agir. Jesus afirma que publicanos e prostitutas, os considerados classicamente pecadores, entram primeiro no Reino, porque acolheram a Palavra e mudaram de vida, enquanto os líderes religiosos permaneceram fechados.

“Um homem tinha dois filhos”. A figura do pai representa Deus, os dois filhos simbolizam dois modos de responder ao chamado divino. Jesus usa uma estrutura simples para revelar uma verdade profunda, isto é, a obediência verdadeira é prática, não discurso.

Diferente da parábola anterior (25º Domingo: operários da vinha), aqui não temos um patrão que sai para contratar empregados, mas um pai de dentro de casa dá um mandamento aos filhos: “Vai, hoje, trabalha na vinha” (grego: hypage semeron egyazou em to ampeloni). Esse imperativo não indica autoritarismo, pois a obediência filial expressa amor e se fundamenta na confiança e na intimidade; obedecer é mais do que executar ordens, é acolher a palavra do outro em vista de um bem maior. O termo utilizado aqui para filhos (grego tékna) tem conotação mais afetiva, indicando relação de intimidade, realça que ambos pertencem ao Pai, mesmo sendo diferentes na resposta. Trabalhar na vinha, imagem clássica de Israel (Is 5; Sl 80), significa participar da obra de Deus, acolher sua vontade e colaborar com o Reino. Portanto, os resultados não são simplesmente para benefício do pai, mas também para os filhos (“O que é meu é teu” Lc 15,31).

A inversão de respostas (não quero/ sim, Senhor, eu vou) e as atitudes dos dois filhos (mudou de opinião/ não foi) são aplicadas por Jesus a situações concretas: o primeiro filho com publicanos e prostitutas: pessoas que inicialmente viviam longe da Lei, do Templo, da religiosidade, mas que acolheram a pregação de João Batista e se converteram; o segundo filho assemelha-se aos líderes religiosos: conhecedores da Lei, aparentemente obedientes, mas incapazes de reconhecer a ação de Deus. A frase de Jesus é provocadora: “Os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. É evidente que Jesus não está fazendo apologia do pecado, mas exaltando a conversão dos pecadores, demonstrada concretamente no acolhimento do apelo de João Batista, acreditando nele.

João Batista é apresentado como modelo de justiça: “Veio até vós num caminho de justiça”. A justiça na Bíblia é, antes de tudo, fazer a vontade de Deus, não simplesmente o cumprimento objetivo de leis. O Profeta despertou a conversão dos pecadores, mas os líderes, por outro lado, mesmo vendo isso, não acreditaram; a expressão é enfática: “nem sequer” se arrependeram; os pecadores viram e mudaram.

A pregação deve despertar conversão, não apenas transmitir doutrinas; a força evangelizadora está no testemunho dos que mudam de vida, e não na eloquência dos discursos religiosos.

Os pecadores convertidos entram antes no Reino porque acolhem a Palavra com humildade, e não simplesmente porque são pecadores. A crítica é clara: ver não basta, é preciso deixar-se transformar.

O primeiro filho que disse não, naturalmente foi sincero pois expressou a sua vontade (“não quero”), foi honesto consigo mesmo, com seus sentimentos, mas não se deixou escravizar pelo sentimento imediato, foi capaz de refletir sobre a vontade do pai; portanto, mudou de opinião (grego: metamélomai, arrepender-se), mudança de sentimento que leva à ação. Ainda que não seja é metanoeô (conversão profunda), indica um arrependimento inicial que abre caminho para a obediência. A conversão não é sentimento, é mudança de direção. O “não” inicial pode ser transformado pela graça em um “sim” verdadeiro, se houver humidade para reconhecer e mudar.

Por outro lado, o segundo filho, que respondeu positivamente ao Pai, inclusive com respeito formal: “Sim, Senhor, eu vou”, mas não agiu de forma coerente com a sua resposta, indica uma religiosidade de fachada, verbal, sem conversão; é o símbolo dos líderes religiosos que não se convertem porque se consideram autossuficientes. A religiosidade exterior é o maior risco para vida de fé, pois engana a si mesmo e aos outros, mas não a Deus, pois não garante comunhão com Ele.

Dentre as várias lições que Jesus nos ensina com essa parábola, podemos destacar a denúncia da rigidez espiritual que se torna incapacidade de reconhecer a verdade que nos leva sempre à conversão. Também fica claro que a verdadeira filiação (tékna) se manifesta na obediência prática, e não simplesmente nas expressões formais desprovidas de compromisso, pois a conversão começa com mudança interior e se completa na ação; a fé autêntica é acolhida humilde da Palavra.

A grande novidade desse ensinamento de Jesus está na verdade de que o Reino inverte expectativas: quem acolhe a graça entra primeiro; a conversão é processo, não perfeição imediata, pois é a Palavra que gera movimento de autêntica mudança e não apenas discurso ou ações piedosas teatrais. Por fim, o maior risco pastoral é a autossuficiência religiosa que impede o arrependimento, enrijece o coração na vaidade religiosa e rejeita o dom da salvação dado aos humildes e simples.

 

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana