O evangelho de hoje não é uma pausa no ensinamento de Jesus, que se encaminha para Jerusalém (cf. 9,51), mas ilustra muito bem como todos os lugares e circunstâncias são propícios para a proclamação do evangelho, quando há fidelidade à verdade e não simplesmente acomodação subserviente ao ambiente humano. Jesus tem consciência do destino universal da sua missão e da necessidade de não excluir ninguém do apelo de conversão. Apesar de inaugurar a sua missão afirmando: “O Espírito do Senhor me enviou a proclamar a boa nova aos pobres” (4,18), nunca excluiu outras categorias de pessoas, inclusive seus adversários.
“Num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus”, esta introdução chama atenção não tanto pelo fato em si, pois temos outras passagens semelhantes, mas qual teria sido a real motivação do fariseu para fazer esse convite. São Lucas já afirmara que era costume de Jesus ir à sinagoga aos sábados (4,16), e lá ensinava. Portanto, é bem provável que o tal chefe dos fariseus estivesse presente e tenha simpatizado com o ensinamento de Jesus, e, por isso, cortesmente o convidou para uma refeição em sua casa.
Porém, dada a tendência exibicionista farisaica, certamente não podemos descartar que além de cordialidade, a visita também visava evidenciar o prestígio do anfitrião, que acolhe em sua casa o grande profeta reconhecido pelo povo (7,16). E para garantir tal proeza havia ali um auditório qualificado: “Os convidados escolhiam os primeiros lugares”.
Ao entrar na casa, Jesus se torna objeto de observação dos convidados; já conhecemos bem a razão pela qual o observam, muito provavelmente para criticá-lo por inveja e despeito. Por outro lado, Jesus também os observa: “Notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares”. Vale salientar que Jesus não os observa para condená-los, mas para lembrar-lhe o que já se conhecia sobretudo na literatura sapiencial israelita (cf. Pr 25,6-7), isto é, a humildade evita a humilhação. A 1ª Leitura de hoje recolhe muitos ensinamentos sobre a humildade como virtude que manifesta a magnanimidade de alguém; ademais, a humildade não só atrai as pessoas entre si, mas também manifesta o poder de Deus e multiplica as suas bênçãos. A humildade é sinal de sabedoria, a arrogância destrói o coração e torna o homem néscio.
“Vai sentar-te no último lugar”: esta decisão não pode ser uma atitude demagógica cujo objetivo é, em seguida, ser promovido para os primeiros lugares. Isto seria uma falsa humildade, pura vaidade travestida de virtude. O humilde não cria expectativas de reconhecimento e aplauso, mas age naturalmente com simplicidade; sua humildade não depende de auditório para se mostrar, pois ela é a força interior que o sustenta, e o seu fundamento é a liberdade interior. A elevação do humilde é consequência da sua virtude e não objetivo calculado, o que seria uma atitude engendrada pela vaidade do orgulhoso. A verdadeira vida não depende de honrarias ou condecorações, mas a grandeza da vida está na generosidade que se expressa no serviço aos outros, sobretudo quando compartilhamos capacidades, dons e talentos.
A humildade é generosa, por isso o humilde não depende de recompensas humanas para ser feliz. Jesus não apenas destaca a nobreza da humildade, mas nos ensina o caminho para crescermos nela: praticando a generosidade desinteressada: “Quando deres uma festa convida quem não te pode retribuir”. Numa sociedade calculista, onde as pessoas visam mais as vantagens que podem ter do que o bem que podem oferecer, é urgente acreditarmos nessas palavras do Mestre, pois Ele nos dá o exemplo do que ensina; Ele mesmo é quem nos prepara uma mesa com carinho, como rezamos no salmo responsorial, e na presença Dele exultamos de alegria.
A Eucaristia é este banquete preparado pelo Senhor e a nós oferecido generosamente, sem expectativa de retribuição e recompensa, pois não seríamos jamais capazes de retribuir-lhe à altura; Ele mesmo nos convida a nós que somos esses pobres, aleijados, coxos, cegos, isto é, incapazes de recompensá-lo. Essas categorias são os excluídos que não podiam entrar no templo (cf. 2Sm 5,8), por conseguinte, jamais seriam convidados para o banquete. Convidando-nos para o seu banquete, Jesus nos acolhe como irmãos e este é o nosso lugar à mesa; não conta mais se ocupamos os primeiros ou os últimos lugares, o mais importante é a nossa condição de filho e irmão.
A universalidade da salvação supera os critérios restritivos de relacionamentos (amigos, irmãos, parentes, vizinhos ricos), pois o anúncio da salvação é destinado a todos sem nenhuma distinção.
Ao instituir a Eucaristia, memorial da sua presença, atualizada permanentemente na Igreja, Jesus se revelou o mediador da Nova Aliança (2ª Leitura), realizada na sua entrega humilde e generosa, no sofrimento e no silêncio (“Vós não vos aproximastes de uma realidade palpável: fogo ardente e escuridão, trevas e tempestade, som de trombeta e voz poderosa”). Somos chamados a nos aproximar desse banquete, ainda que deserdados, mas na certeza de que encontraremos abrigo; ainda que prisioneiros, mas certos de que seremos libertados para assim nos saciarmos com fartura (Salmo responsorial).
“Tu serás feliz!”: o objetivo principal de uma vida humilde não é a recompensa imediata, mas a felicidade permanente. A única expectativa do Divino Anfitrião é que sejamos felizes (grego: makarioi, bem-aventurados, abençoados) não porque somos capazes de retribuir-lhe o que nos dá, mas porque somos humildes em receber o que Ele nos oferece e repartir com todos.
“Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”. Ainda que incapazes de retribuir à altura ao convite para participar do banquete, se acolhermos com humidade esse dom, um dia participaremos em plenitude da realidade que no banquete é anunciada e antecipada. Mais uma vez retornamos ao banquete cuja participação nos é oferecida generosamente sem expectativas de retribuição, a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do Divino Anfitrião, penhor da nossa ressurreição.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana