Entramos mais uma vez no tempo santo da Quaresma, esse período em que a Igreja, com sabedoria materna, nos convida a voltar ao essencial. A Quaresma não é um peso, não é um conjunto de proibições, não é um moralismo espiritual. Ela é, antes de tudo, um caminho de cura, um itinerário de reencontro com aquilo que somos diante de Deus, diante do outro e de nós mesmos. Somos chamados a acolher o forte apelo da Palavra de Deus: “É agora o tempo favorável, é agora o dia da salvação” (2ª Leitura). A Quaresma não é apenas um tempo de preparação dos catecúmenos para o Batismo — embora isso seja central — mas um convite para que todos os batizados retomem a consciência da sua própria identidade cristã, pois a Igreja é “batismal” não só porque nasceu do Batismo, mas porque vive continuamente dele. Isso significa retomar a dinâmica da conversão, que não é moralismo ou mudança passageira de algumas atitudes, mas abertura ao Espírito; é reconhecer que o Batismo é princípio de vida nova, e não apenas um rito do passado, e assumir que a fé é caminho, não ponto de chegada.
O gesto das cinzas é um dos mais fortes do ano litúrgico justamente porque une humildade e esperança. Ele não é um ritual mágico, nem um atalho para “apagar pecados”. As cinzas recordam a fragilidade humana: “Tu és pó”; apontam para a verdade da vida: “ao pó retornarás”; é apelo de conversão — não como ameaça, mas como oportunidade para reacender a esperança, pois a vida se renova quando acolhemos o Evangelho: “Convertei-vos e crede no evangelho”; que, por sua vez, não é um aviso sombrio, mas um convite amoroso. É como se Jesus nos dissesse: “Volta para o caminho da vida. Confia na boa notícia. Deixa-te transformar”.
Jesus, o nosso Mestre, nesse caminho de conversão nos indica passos concretos para avançarmos nessa estrada: esmola, oração e jejum; tais práticas já eram conhecidas e consagradas pela piedade judaica, mas Jesus as repropõe advertindo o risco de fazer delas meras práticas exteriores a fim de serem vistas pelos homens; recupera o seu significado mais profundo, cujas raízes estão no interior do ser humano chamado a participar do mistério de Cristo, o homem novo, profundamente marcado pela abertura ao próximo (esmola – grego: eleemosúne, algo dado por misericórdia), pela fome de Deus (oração) e pela consciência de suas limitações (jejum).
Apesar de não se poder estabelecer uma hierarquia para dizer qual é a prática mais importante, pois as três estão intimamente relacionadas, chama a atenção o fato de Jesus ter iniciado pela caridade (esmola), pois esta é a expressão mais concreta da fé manifestada na oração, e do autodomínio (jejum), que é o grande bem que alguém pode realizar a si mesmo. Por que Jesus começa pela esmola? Porque é impossível fingir caridade. A esmola é o teste concreto da autenticidade da oração e do jejum. É fácil parecer piedoso; difícil é amar de verdade. Jesus começa pelo mais exigente, pelo que revela se o interior corresponde ao exterior.
A esmola, a fé que se torna gesto, no sentido bíblico, não é dar “sobras”, mas deixar que a misericórdia de Deus passe por nós. O termo grego eleemosýne revela isso: é algo dado por misericórdia, não por obrigação ou vaidade: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão esquerda”. Quando a caridade é autêntica, ela revela que a oração não é fuga do mundo, mas abertura ao outro. A oração, a fome de Deus, é o lugar onde o coração se deixa moldar: “Entra no teu quarto, fecha a porta”. Sem ela, a esmola vira filantropia vazia; com ela, torna se expressão da comunhão com Deus. Jesus insiste no “segredo” porque a oração verdadeira não busca plateia, mas intimidade. É ali que nasce o olhar misericordioso que depois se traduz em ação. Na prática do jejum encontramos a possiblidade do encontro com a verdade sobre nós mesmos; não é simplesmente mortificação pela mortificação, mas um exercício de liberdade interior, pois nos lembra que não somos deuses, que temos limites, que precisamos de conversão. É o gesto que nos educa para o essencial e nos liberta da tirania dos desejos. Portanto, é preciso recuperar a unidade dessas três práticas; são três faces de um mesmo movimento espiritual: a oração volta o coração para Deus, o jejum volta o coração para dentro e a esmola volta o coração para o próximo. Quando falta uma delas, as outras se esvaziam. Quando as três se encontram, nasce o “homem novo”, alguém que vive a fé de modo encarnado, humilde e misericordioso.
Numa circularidade sem início nem fim, podemos dizer que só é capaz de dar esmola quem faz a experiência de suas próprias necessidades, carências, de sentir-se um necessitado, cuja consciência mais amadurecida nos vem de uma vida de oração, de intimidade com Deus, diante de quem nos colocamos como absolutamente necessitados, e de quem recebemos tudo. Por sua vez, a intimidade com Deus (oração) nos leva à lucidez de que somos criaturas, cuja liberdade se constrói à medida que aprendemos a renunciar até pequenos bens para alcançar maiores. No jejum não se faz a experiência da privação de algo ruim, mas aprende-se que é possível renunciar até aquilo que é necessário (alimento) e representa um bem.
Quando não jejuamos motivados espiritualmente, por liberdade interior, por disciplina espiritual, muitas vezes somos obrigados a jejuar pela doença, pela fragilidade do corpo que já não aguenta nossos excessos. Quando relativizamos a oração, quando deixamos de cultivar o silêncio, a escuta, a intimidade com Deus, acabamos sufocados por angústias que tentamos silenciar com remédios, porque a alma perdeu o espaço de repouso. Quando abandonamos a esmola, a partilha, a generosidade, e nos deixamos seduzir pela avareza e pela acumulação, passamos a viver com medo do outro, como se o semelhante fosse ameaça e não um irmão. Com efeito, quando abandonamos as práticas espirituais que nos humanizam (esmola, oração e jejum), a própria vida acaba nos impondo versões dolorosas dessas mesmas práticas: no lugar de jejum espiritual, dieta imposta pela doença; quando a oração relativizada ou deixada de lado, recorre-se aos psicofármacos para sedar angústias; e quando a esmola e partilha são esquecidas, cai-se nas paranoias diante do outro, visto como inimigo ou concorrente.
Neste tempo de forte apelo de conversão, a Campanha da Fraternidade nos propõe a partir do tema: “Fraternidade e Moradia”, inspirado pela Palavra de Deus: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), uma reflexão e pistas concretas que nos ajudam a reconhecer e assumir atitudes concretas que testemunhem a nossa fé, as consequências do nosso batismo. A precariedade ou falta de moradia digna para muitos de nossos irmãos demonstram como a humanidade ainda não acolheu Aquele que quis vir armar a sua tenda entre nós.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana








