Neste IV Domingo da Quaresma (A) continuamos a catequese sobre batismo cujo centro está na afirmação de Jesus: “Eu sou a luz do mundo”. Quando São João Paulo II inseriu os Mistérios da Luz no Rosário Mariano, a fim de ressaltar mistérios da vida pública de Jesus, afirmou que “todo o mistério de Cristo é luz” (cf. RVM 21). Portanto, o episódio hodierno nos convida a contemplar o Cristo como Luz que revela Deus e revela o próprio ser humano. Na cura do cego de nascença, o sinal é duplo: Jesus revela quem Ele é: “Luz do mundo” (Jo 9,5), aquele que recria, que devolve a visão, que faz novas todas as coisas. Mas revela também quem somos: criaturas chamadas à luz, à verdade, à vida plena: “a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). A tradição cristã antiga chamava o Batismo de iluminado (grego: photismós, cf. Hb 10,32); também nos escritos dos Padres da Igreja os recém-batizados era chamados de iluminados. Ainda hoje se conserva no próprio rito do batismo a entrega da vela acesa ao neófito com as seguintes palavras: “Recebe a luz de Cristo”.
No IV evangelho, diferentemente do sinóticos, não se encontra a palavra milagre (grego: dynamis, thauma), mas se prefere o termo sinal (grego: semeion) para evidenciar que a cura, neste caso do cego, não é apenas um milagre, isto é, uma intervenção divina para benefício apenas do miraculado, mas aquilo que se realiza é uma verdadeira epifania: Deus se aproxima, toca o barro da nossa humanidade e nos recria enviando-nos em missão a partir do nosso batismo. Por conseguinte, o significado do acontecido vai para além das pessoas envolvidas e de suas circunstâncias. Por isso, podemos falar de um caráter catequético, mistagógico.
“Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença”: Esta introdução não serve apenas de aceno contextual, mas nos dá uma chave de leitura do sinal. O verbo grego aqui traduzido por “ao passar” (grego: paragon, passando) é composto por: para (ao lado) + ago (ir, levar – consigo). Para além da riqueza semântica impossível de ser apresentada aqui, podemos compreender que ao passar Jesus leva consigo o cego, ou seja, a passagem de Jesus ilumina o caminho do cego a ponto de ele poder recuperar a vista, não apenas material, mas a fé que o torna discípulo de Jesus (“Tu sim, és discípulo dele”). A sua condição de cego de nascença (grego: ek genete, saído do ventre) indica a humanidade herdeira do pecado (do nascimento, pecado original), consequentemente imersa na escuridão.
“Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego”: O gesto de Jesus é uma verdadeira “unção” e não apenas aplicação de lama; o verbo grego epechríō é importante, pois não significa simplesmente “passar” ou “colocar”, mas tem o mesmo radical de chrío, “ungir”, condensando assim três sentidos simultâneos: unção real — como os reis eram consagrados (1Sm 10,1), unção sacerdotal — como Aarão e seus filhos (Ex 28,4), e a unção profética — como Elias unge Eliseu (1Rs 19,16). Ungir o cego, portanto, não é um detalhe: é consagrá-lo, elevá-lo, restaurar sua dignidade como sacerdote, profeta e rei, elementos constitutivos da natureza espiritual de todo batizado. A argila e a saliva são elementos que fazem memória da criação; ao misturar terra e saliva, Jesus repete o gesto de Gn 2,7: Deus molda o ser humano do pó da terra, e sopra o fôlego de vida; somos feitos da terra, portanto temos limites, fragilidades, dependências. Mas recebemos o sopro divino, isto é, temos transcendência, liberdade, consciência, desejo de infinito. A cura do cego se torna uma nova criação. Não é só devolver a visão física, mas recriar o homem para a verdade. A primeira verdade revelada: o homem é criatura e não absoluto.
“Vai lavar-te na piscina de Siloé (enviado)”. A cura não se dá nem termina com a unção dos olhos, mas exige um passo decisivo que é obedecer à Palavra de Jesus e ir lavar-se em Siloé. A unção é graça; o lavar-se é resposta. A verdade só se revela a quem aceita caminhar com ela; obedecer significa estar disposto a assumir as consequências de ter se encontrado com a Luz. O simbolismo de Siloé enriquece essa catequese batismal, Jesus (enviado do Pai) envia o cego a fim de que mergulhe no Enviado. Quando o cego mergulha na piscina, ele está simbolicamente mergulhando no próprio Cristo.
“O cego foi, lavou-se e voltou enxergando”. A cura física abre caminho para a cura interior, que só se completa no discipulado. A verdade não se conhece apenas por iluminação inicial, mas por adesão contínua ao Cristo. Portanto, o cego de nascença é um ícone do catecúmeno: vive na escuridão, como o catecúmeno vive na busca; é tocado por Cristo, como o catecúmeno é preparado pela Palavra e pela comunidade; lava-se na água de Siloé, como o catecúmeno mergulha nas águas do Batismo. Assim como o cego passa a ver, o batizado passa a viver como “filho da luz” (Ef 5,7).
A água, o barro, a obediência ao mandato de Jesus e o testemunho público formam uma verdadeira liturgia em movimento. Pois o evangelho não termina na cura, mas no testemunho. O homem curado passa por um processo de amadurecimento da fé (assim como a Samaritana, III Domingo). O homem que antes não via passa por um processo: primeiro reconhece Jesus como “um homem”, depois como “profeta”, em seguida como alguém “vindo de Deus”, e por fim O adora como “Senhor”.
“Os vizinhos e os que costumavam ver o cego”. A dinâmica da verdade exige coragem.
O texto destaca três grupos que veem a verdade, mas não a acolhem: vizinhos preferem a dúvida à conversão, os pais do cego temem as consequências sociais e os fariseus rejeitam a verdade porque ela ameaça seus esquemas. Esses personagens representam resistências humanas universais: medo de mudar, medo de perder segurança, apego a estruturas rígidas. Contudo, só verdade liberta, mas também desinstala.
“Eu creio, Senhor!”. Chegamos ao ápice desse itinerário catequético. Não basta apenas ser curado, é preciso tornar-se discípulo-missionário, por isso este Tempo da Quaresma nos favorece discernimento para reconhecer as sombras que ainda nos habitam, purificação para deixar Cristo tocar o barro da nossa vida, iluminação para abrir os nossos olhos para a verdade e missão para tornar-nos testemunha da luz. A liturgia quaresmal, sobretudo para os catecúmenos, mostra-lhes que a fé é um caminho crescente, uma iluminação progressiva. Quem se deixa tocar por Cristo não apenas vê coisas, mas O reconhece. Mas também para os já batizados é um convite a renovar a graça recebida: não apenas lembrar o Batismo, mas viver como iluminados, como “filhos da luz” que rejeitam as obras das trevas (Ef 5,8-14).

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana









