O evangelho deste domingo, a parábola dos trabalhadores da vinha, apresenta uma das mais fortes afirmações de Jesus sobre a graça, a justiça divina e a reviravolta dos critérios humanos. No centro do seu ensinamento está a verdade paradoxal à lógica humana, Deus não age segundo o critério da retribuição humana, mas de acordo com a sua absoluta liberdade, segundo a sua bondade que se expressa em dom gratuito. Ao introduzir a parábola com a clássica expressão: “Reino dos Céus”, Jesus indica que não é uma história moral, mas uma revelação sobre o modo de agir de Deus, cujo Reino segue uma lógica própria, diferente da lógica humana de mérito, reivindicações ou recompensas a privilegiados.
Jesus revela o agir do Pai (patrão) que, saindo repetidas vezes ao longo do dia para contratar trabalhadores, toma a iniciativa de ir ao encontro da humanidade, oferecendo-lhe possibilidades de receber a salvação; todos são convidados, inclusive os que “ninguém contratou”. O simbolismo da vinha, imagem tradicional para falar de Israel (cf. Is 5), agora com significado ampliado, indica espaço simbólico da missão e da salvação, o Reino dos Céus.
As diferentes horas do dia (madrugada, nove, meio-dia, três e cinco da tarde) indicam a diversidade dos chamados ao longo da história da salvação (judeus, depois gentios), como também a diversidade das respostas individuais ao longo da vida.
“Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos”; a inversão é intencional, pois Deus desmonta expectativas humanas. Os últimos recebem primeiro para provocar a reação dos primeiros, a parábola é pedagógica. O salário combinado (um denário) era a diária justa de um trabalhador; na parábola, simboliza a salvação, igual para todos, pois não há diversificação de estados de salvação.
“Começaram a resmungar… Suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro”. A murmuração ecoa o Êxodo quando o povo reclama mesmo diante da bondade divina (cf. Ex 15,24; 16,2). Na murmuração dos primeiros contratados evidencia-se a lógica humana baseada em mérito e comparação de superioridade. Eles não reclamam do salário, mas da generosidade com os outros. A inveja espiritual é mais destrutiva que a injustiça real.
A resposta do proprietário: “Não fui injusto contigo”, revela que a justiça divina não é distributiva, mas o que a determina é a misericordiosa; é a soberania de Deus em dar segundo sua bondade, não segundo cálculos humanos.
A parábola desmonta a lógica meritocrática e revela que, no Reino, os últimos podem ser os primeiros, porque Deus não distribui recompensas, mas oferece a sua graça, a salvação. O problema não é a justiça de Deus, mas a inveja humana.
A parábola, na verdade, não trata de economia, mas de teologia da graça: Deus chama todos (universalidade), dá o essencial igualmente (salvação), é livre para ser bom; por outro lado, é a inveja espiritual o verdadeiro obstáculo. A inveja espiritual é incapacidade de alegrar-se com o bem que Deus faz ao outro. Ela destrói comunhão, missão e fraternidade.
A parábola dos trabalhadores da vinha ajuda-nos a fazer um verdadeiro diagnóstico espiritual e um remédio pastoral para tensões que surgem em qualquer comunidade cristã. Portanto, a comunidade deve acolher inclusive quem chega tarde, e não deve medir o passado das pessoas, mas acolher com alegria quem chega.
A bondade, imitando o próprio Deus, deve superar a tentação da comparação espiritual que, por sua vez, gera competição e ressentimento, enquanto a gratidão gera comunhão. Quando falta a bondade, a missão perde sua qualidade e torna-se um acúmulo de afazeres entre competidores mesquinhos. Por isso, a missão exige “olhos bons” (“estás com inveja”, literalmente no grego: “teu olho é mau”, ho ofthamós su estin ponerós), expressão idiomática para inveja.
Quem exerce o serviço da liderança na comunidade, deve agir como fez o dono da vinha que sabe ser firme, justo, mas também bom e generoso.
Por sua vez, a comunidade deve ser lugar do encontro com a bondade de Deus que abre possibilidade de recomeço; a experiência de ser acolhido motiva a participação na missão. Mais do que formação de equipes para dividir tarefas, a missão, o trabalho na vinha, é acolher o dom da salvação reconhecendo como dádiva da bondade de Deus e não como prêmio aos méritos individuais.







