Com a celebração da Ascensão do Senhor damos mais um passo importante no itinerário pascal. Não devemos pensar simplesmente que estamos nos encaminhando para o fim desse tempo litúrgico; na verdade, estamos nos aproximando do seu ponto mais alto, isto é, o momento de assumir a nossa participação na missão Daquele que morreu e ressuscitou, e que subindo aos céus, continua presente entre nós, pois Ele mesmo nos assegura nas suas últimas palavras no evangelho de hoje: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.
Ao narrar a cena da Ascensão do Senhor, como conclusão do seu evangelho, São Mateus encerra a sua obra com um movimento duplo e muito intencional: ao mesmo tempo faz uma retrospectiva de quem é Jesus e de toda a sua missão, e apresenta a missão que os discípulos, de agora em diante, devem assumir.
“Os onze discípulos caminharam para a Galileia”: a Galileia foi o ponto de partida da missão de Jesus: “Ao ouvir que João foi preso, Jesus voltou para a Galileia… E a partir desse momento começou a pregar” (Mt 4,12.17). Agora, é a vez de os discípulos refazerem o caminho do Mestre, assumindo a sua missão a partir da Galileia. Não se trata apenas de uma referência geográfica, mas de um dado histórico que indica a missão concreta de Jesus, em sintonia com a Tradição veterotestamentária conforme o profeta Isaías: “Galileia das nações! O povo que viva nas trevas viu uma grande luz; aos que jaziam na região sombria da morte, surgiu uma luz” (Is 8,23-9,1; Mt 4,16).
“Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”: retrospectivamente retoma tudo o que Jesus fez ao longo do evangelho: ensinou com autoridade sobre o Reino dos Céus; desde o Sermão da Montanha até as parábolas, Jesus formou discípulos pela palavra e pelas atitudes, e com coerência interpretou a Lei. O termo autoridade (grego: exousía) é um termo técnico para designar capacidade para ensinar (cf. 7,29), domínio sobre doenças e demônios (cf. 10,1), poder para perdoar pecados (cf. 9,6). A declaração pós-pascal (grego: pâsa exousía toda a autoridade) universaliza essa autoridade: céu e terra (eco de Dn 7,14).
Portanto, a autoridade de Jesus se manifestava quando curava, libertava, expulsava o demônio, perdoava. Ademais, afirmar ter total e absoluta autoridade é proclamar a sua vitória definitiva contra a tentação reducionista de conquistar apenas os reinos do mundo como propusera o diabo no início: “Mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e lhe disse: ‘Tudo te darei, se prostrado, me adorares’”. Jesus não se curvou diante do diabo para receber os reinos da terra, mas os discípulos que “ao verem Jesus, prostraram-se diante dele”, reconhecendo que só Ele tem a verdadeira autoridade e poder, só Ele é Deus, a quem se deve adorar. Contudo, mesmo diante do Ressuscitado, o evangelista sublinha: “alguns duvidaram”. Essa nota realista mostra que a missão não nasce da perfeição dos discípulos, mas da autoridade e presença de Cristo.
A cena hodierna, como dissemos anteriormente, também tem caráter prospectivo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”: com essas palavras, Jesus traça o perfil essencial da missão dos discípulos que não significa desempenhar uma tarefa, mas assumir a missão que, por sua vez, deve espelhar a própria missão do Mestre. Portanto, eles devem ir, como Jesus fez em toda a sua vida terrena “saindo ao encontro de todos”, diríamos hoje com as palavras do Papa Francisco: ir às “periferias geográficas e existenciais”, para anunciar a Boa Nova da Salvação aos doentes, marginalizados, necessitados etc.
“Fazei discípulos” (grego: mathēteúsate): é o único imperativo principal da frase. Os demais verbos (poreuthéntes, baptízontes, didáskonte) são particípios (modais) que especificam como fazer discípulos. Dito de forma simples: a ordem de Jesus não é “ir”, mas “fazer discípulos”; o “ir” é consequência natural. Literalmente: “fazei discípulos”, indo, batizando, ensinando.
“Todas as nações” (grego: pánta tà éthnē). Em São Mateus, éthnē pode significar povos gentios, grupos humanos em geral. Aqui, o sentido é universal, não é apenas missão aos gentios, mas abrangência total. O evangelista não abandona Israel que lhe é tão caro, mas amplia o horizonte dos destinatários da salvação.
Por outro lado, fazer discípulos não é apenas transmitir um código doutrinal, mas favorecer uma experiência que envolva toda a vida no mistério de Deus, isto é, “batizando-os”, mergulhando-os numa nova vida, a fim de formar pessoas no estilo de vida do Reino.
“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A fórmula trinitária mais explícita do Novo Testamento (grego: eis tò ónoma: “em nome”) indica pertencimento, não apenas invocação. Estamos diante de uma fórmula única no NT e reflete já uma teologia trinitária embrionária. Por conseguinte, o batismo introduz na nova comunidade messiânica, marcando a adesão ao Deus revelado por Jesus que é Pai, Filho e Espírito Santo.
“Ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” Ensinar a observar significa perpetuar o ensinamento de Jesus e não criar doutrinas novas. O evangelho termina como começou: com Jesus sendo o Mestre, cuja missão se estende através da missão dos discípulos chamados à fidelidade e perseverança: fazer o que Ele fez e ensinar o que Ele ensinou, pois a autoridade é de Cristo, a presença é de Cristo, a obra é de Cristo. A Igreja nasce como comunidade missionária, pedagógica e discipular (ensina e aprende), não possui nem autoridade nem existência próprias, mas sempre obediente e unida ao seu Senhor. O relato da Ascensão confirma que a missão da Igreja tem quatro características fundamentais: Universalidade (todas as nações), Discipulado (não proselitismo, mas formação), Sacramentalidade (batismo como entrada na comunidade, iniciação à vida cristã) e Fidelidade ao ensinamento de Jesus (não há “novo evangelho”); a missão não é opcional, mas é constitutiva.
“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Passo fundamental para a realização da missão é confiar na presença permanente de Cristo. Só essa convicção de fé garantirá a continuidade da missão, isto é, da obra que Ele iniciou, e não um mero esforço isolado dos discípulos. Na verdade, é essa promessa de Jesus que sustenta a missão. Vale salientar que o evangelho termina com uma frase que ecoa e remete ao seu início: “O menino será chamado Emanuel, Deus conosco” (cf. 1,23); no final, Jesus Ressuscitado confirma: “Eu estarei sempre convosco. Esta promessa final é o clímax teológico de todo o evangelho; não é presença simbólica, mas presença ativa, não é temporária, mas “todos os dias”, não é limitada, mas “até a consumação do século”.
Que a celebração da Ascensão do Senhor nos fortaleça na certeza de que Ele está sempre conosco e que sem Ele não poderíamos fazer.








