O centro do evangelho deste domingo, continuando a leitura do chamado “Discurso eclesial” do evangelho de Mateus (18), é a lógica do perdão ilimitado, que nasce da experiência da misericórdia de Deus. Jesus contrapõe à lógica humana da vingança o compromisso de perdoar assim como se é perdoado.
“Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?” A pergunta mais do que quantificar as vezes de dar o perdão, na verdade, revela a tendência humana de colocar limites no perdão. A resposta de Jesus rompe essa lógica mesquinha e desumana, calculista e superficial, substituindo a espiral da violência pelo turbilhão da misericórdia. Em grego perdoar (apheso, literalmente “deixar ir” “libertar”). Por isso ilustra bem a parábola contada por Jesus, pois joga com o contraste entre colocar na prisão e libertar. Ao mesmo tempo, explicita de forma muito realista a realidade humana necessitada de perdão, e a desumanização do coração, que mesmo recebendo, opta por não oferecer o que lhe foi concedido.
Podemos identificar três momentos distintos na parábola: o servo que deve uma enorme quantia ao rei (vv. 24-27); o mesmo servo diante de seu companheiro (vv. 28-31); o rei julga o servo mau (vv. 32-34). Tudo se conclui com a aplicação moral à vida da comunidade: “É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco” (v. 35).
De forma pedagógica, Jesus apresenta o contraste entre as dívidas: o servo devia ao rei cerca de 340 toneladas de ouro (grego: myríon talánton, dez mil talentos), impagável; o companheiro devia ao servo menos de 30 gramas de ouro (grego: hékaton denária, cem denários), irrisório; a finalidade do contraste hiperbólico é demonstrar a realidade da misericórdia infinita de Deus diante de nós, e a mesquinhez humana diante dos outros.
No coração da parábola está a compaixão, pois o rei perdoa porque “teve compaixão” (grego: splanchnistheís). Em Mateus este verbo revela o modo de Jesus realiza a sua missão (9,36; 14,14; 15,32; 20,34); o perdão nasce das entranhas de Deus, não é resultado de cálculo.
O servo mau não foi capaz de imitar o rei porque lhe faltava justamente a misericórdia que transformaria o seu coração. A maldade aqui é moral, não apenas comportamental: incapacidade de deixar-se transformar pela misericórdia.
A reação de tristeza dos outros servos (“ficaram penalizados”) ao ver a dureza do servo mau é sinal de que a falta de perdão fere o corpo inteiro da comunidade.
A pergunta do rei se torna o critério do julgamento: “Não devias também tu ter compaixão?” O servo mau não reconhece em si o que ouviu do outro. O verbo “dever” (grego: deî) é o mesmo usado por Jesus ao anunciar sua paixão (“É necessário que o Filho do Homem sofra…” Mt 16,21). Não é só possibilidade, é necessidade. Portanto, perdoar não é opcional, é necessidade evangélica, é condição para se tornar discípulo e perseverar no seguimento de Jesus, é a renúncia ao ego ferido para assumir o caminho da cruz.
O perdão deve ser de coração, não apenas formal; incondicional, não calculado; recíproco, porque todos somos devedores e necessitados da misericórdia divina.
O evangelho de hoje não é apenas um ensinamento sobre o ideal do perdão, mas um apelo diante da necessidade real de receber e dar o perdão. Isso exige de nós o reconhecimento de nossa própria dívida diante de Deus, a decisão de abandonar a lógica da vingança, do ressentimento e da contabilidade moral, e perdoar como quem recebeu um perdão infinito. Sem isso, será impossível construir comunidades onde a misericórdia é o critério das relações.
O perdão cristão nasce da experiência da misericórdia recebida, e não simplesmente de uma decisão humana autossuficiente, pois a força para perdoar não está em nós, mas naquele que nos perdoa sempre. Negar o perdão revela um coração ainda não transformado, não curado completamente pela misericórdia de Deus. Fechar-se à misericórdia e não ser misericordioso não provoca danos apenas à pessoa individualmente, mas a toda comunidade sofre quando há dureza entre irmãos. Portanto, perdoar é necessidade evangélica, não opção meramente da boa vontade humana, o perdão deve ser do coração, não apenas jurídico ou externo. Não se perdoa para ganhar pontos, mas para libertar-se e alcançar a plenitude da vida.







